O que é vanguarda? O susto
O susto é vanguarda, enquanto assusta.
Houve uma época em que o rádio era a vanguarda da mídia. Chegava antes da notícia. Andava na frente da TV. Lançava moda. Criava sucesso na música.
Tinha Jabá, lembra? Porque o rádio tinha esse poder de mudar costumes e de gerar hábitos. Vendia discos. Aí, bem, aí apareceu uma coisa nova. E coisa nova sempre assusta. O gramofone assustou a música ao vivo. A TV assustou o cinema e o rádio. A fotografia assustou a pintura. E surgiu a Internet, que assustou a TV, o Rádio, o Cinema e a Música.
Hoje tenho cá com meus botões uma grande dúvida: o que é vanguarda? O que lança coisas, além de Kin Jong Il?
Durante muito tempo eu ouvi rádio FM por dever de ofício. A Rádio Eldorado era minha cliente. E era sim uma rádio inovadora. Ouvindo a Eldorado FM dava pra saber o que seria tocado nas outras rádios alguns meses depois. A própria onda “unpluged” , que depois cresceu com maestria pelas mãos da MTV, surgiu com um disco revolucionário de Zizi Possi pelo Selo Eldorado.
Ou seja, eu sabia onde buscar referências do que era novo na música. E hoje? Veja bem, coloco o caso da música apenas como exemplo. O que me parece é que tudo o que chamamos de “cultura” está meio à deriva. O cinema resgatando super-heróis empoeirados através de efeitinhos especiais manjados. A TV cada vez menos inteligente com a onda de reality shows (que de reality não têm nada). O rádio deixando de ser vanguarda. E, como resultado, a publicidade perdidinha, atirando pra todo o lado, seguindo todo mundo. Do tipo Citroen querendo vender um carro esportivo através dos Transformers, como se os compradores tivessem 15 anos de idade. Ou da Amil, querendo vender planos de saúde com um texto pseudo-emocional-pré-depressão-sem-cura.
Será tudo isso resultado do susto chamado internet? Será ela o graal da novidade? Ou será a falta de cabelos brancos e de cérebros dentro das agências e dos clientes? Será tudo fruto da juniorização não apenas das empresas, mas do planeta inteiro?
Duas coisas me parecem cristalinas:
1) a busca incessante pelo novo está fazendo todos repetirem velhas fórmulas sem conteúdo.
2) Hoje vivemos uma nova ditadura: a ditadura da juventude.
Resumindo, como publicitário, sinto falta de um comercial como o Primeiro Sutiã ou como o filme Hitler,da Folha de São Paulo. Sinto falta de começo-meio-e-fim. Sinto falta de idéias. Como ouvinte de rádio, sinto falta de boa música. Como amante do cinema sinto falta de inteligência. Mas tudo isso deve ser culpa de meus cabelos brancos.









3 comentários
Claudio,
Apesar de ainda nao ter cabelos brancos, concordo com suas palavras, especialmente no que tange à publicidade e ao cinema. Acredito que o problema seja o ritmo, cada vez mais alucinado, obrigando a todos a criarem coisas novas numa dinâmica em que se torna impossível ter novas idéias num mesmo tempo de produção de pão quente de padaria. Sobra então a “reinvenção” do velho…
Erika, concordo com você. O domínio da tecnologia alucinou nosso dia-a-dia. Se por um lado a tecnologia democratizou a produção da expressão e da cultura, por outro lado nos mostrou nossos limites criativos. Sem dúvida, hoje nos sentimos mais lentos do que a tecnologia. Brilhante colocação.
Grande Abraço. Claudio Gonçalves.
Acredito que os jovens também se sentem perdidos, e esta situação se deve a um emaranhado de erros, como a venda exagerada de sensacionalismo, tragédias, programas sem conteúdos etc. Uma coisa leva a outra a TV está cada vez mais burra e achando que o caminho é certo, as produtoras lançando mulher melancia, melão, toda salada de fruta, que por sua vez ganha a atenção do rádio da TV, internet etc.
Este tipo de produto é apenas um exemplo, existem mais lixos sendo vendidos. E para acabar de completar temos ai uma educação de péssima qualidade, e a educação é o alicerce de um cidadão, todos nós sabemos, para ir mais longe vejo adolescentes que não sabem distinguir a diferença entre vogais e consoantes. Como vc quer ver um comercial como o Primeiro Sutiã ou como o filme Hitler,da Folha de São Paulo com começo-meio-e-fim, ou a boa música e o filme inteligente. Se não temos estrutura mais para isso?
Impossível. Pois estamos vivendo a inversão de valores e isso reflete em tudo.